Efeitos da Covid-19
Motoristas de app e taxistas vivem nova realidade
Em pontos de muita movimentação, fluxo de passageiros despencou mais de 70% durante a pandemia
Carlos Queiroz -
É uma realidade que boa parte dos negócios foi afetada negativamente com a pandemia da Covid-19. O ramo do transporte não ficou de fora da consequente crise econômica. Em Pelotas, motoristas de aplicativo e taxistas estimam que o movimento de clientes despencou em mais de 70% de março até outubro.
O trimestre de março, abril e maio foi o momento de pior fluxo de passageiros, acredita o presidente do Sindicato dos Taxistas e Transportadores Autônomos de Passageiros de Pelotas (Sinditaxi), Leonardo Nunes. Nessa época do ano, o número de infecções pelo coronavírus em Pelotas começou a crescer, de modo que as medidas de isolamento social e segurança sanitária ficaram mais rígidas. Sem gente na rua, sem corridas para fazer.
A queda não foi só de passageiros e muitos dos motoristas decidiram ficar em casa, principalmente aqueles dos grupos de risco ao vírus. “Foi um momento de muito medo e preocupação com a saúde. Na média, muitos dos taxistas tem uma idade avançada e esses preferiram ficar em casa”, lembra o presidente.
Ainda segundo ele, alguns dos pontos foram mais prejudicados que outros. Como é exemplo da Estação Rodoviária de Pelotas (Eterpel), que alocava 25 táxis prontos para partir em corridas e, depois de março, o número caiu para seis. Comparado ao ano passado, o fluxo de clientes para os táxis caiu em mais de 70%.
Há mais de 20 anos Ricardo da Silva, 37, trabalha como taxista do ponto e durante o pior trimestre em relação ao fluxo de passageiros ele foi um dos motoristas que trabalhou no terminal rodoviário. “Ficar em casa não era uma opção. Minha profissão é ser taxista, toda vida trabalhei disso. Se tem ônibus rodando, estamos na rodoviária”, ressalta.
Desde março, as saídas e chegadas de ônibus com passageiros no terminal caiu drasticamente. Em razão de decretos municipais e estaduais, o número de viagens por dia precisou ser reduzido. “A rodoviária praticamente fechou, as lojas e lancherias ficaram muito tempo fechadas. Foi algo que eu nunca tinha visto”, conta o taxista.
Expectativas frustradas
Quem trabalha como motorista de aplicativo sabe da máxima: o início do período letivo é o momento de maior fluxo de passageiros. Esse ano, a expectativa não foi diferente entre os trabalhadores. O mês de março é o momento de maior aumento de chamadas por corridas por empresas Uber e 99. As expectativas, no entanto, foram frustradas com a chegada da Covid-19 na cidade.
Leonardo Goulart, 24, trabalha com a Uber há três anos, desde que a empresa passou a rodar em Pelotas. Segundo ele, cerca de 70% do público que mais utiliza o transporte por app são os estudantes, seja em corridas no horário das aulas, como a noite, na saída de festas e bares. “Nós geramos a expectativa de melhora no movimento e quando começou a pandemia, o susto e o baque foi bem grande”, lembra.
Com as casas noturnas, bares e comércios fechados, muitos conhecidos pararam de trabalhar com os aplicativos. “O problema foi que as contas não baixaram e o serviço baixou. Teve gente que fez até empréstimo para conseguir pagar as contas. Eu tive que atrasar uma conta, pagar outra, pra não ficar com o nome sujo”, explica.
Para ele, a palavra que sintetiza o momento é readequação: diferente de antes da pandemia, os trabalhadores passaram a não ter um horário fixo de serviço. Os momentos de pico nas chamadas agora são outros, o que muito depende da movimentação do comércio no Centro da cidade. Até então, o total da renda do mês não se recuperou por completo, comparado ao que era no último ano.
Proteção dentro do carro
O medo de infecção pela Covid-19 é grande. Dentro dos veículos, medidas precisaram ser tomadas. Uma delas foi a instalação de materiais impermeáveis nos bancos, assim como no assoalho dos carros. Outros motoristas optaram pela colocação de películas de acrílico, para dividir o espaço entre os bancos da frente e de trás do carro.
Números apresentam leve recuperação no setor
Em Pelotas, tanto o Sinditaxi como os motoristas de app acreditam que, dos últimos meses pra cá, o cenário tem apresentado uma melhora progressiva. De pouco em pouco, o número de passageiros volta a crescer. Um dos dados que confira essa realidade é o divulgado pela Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis (Abla).
Entre março e maio, dos 200 mil carros alugados para motoristas de app, cerca de 160 mil haviam sido devolvidos para as empresas. Alguns meses depois, em agosto, o número voltou a crescer: 90% dos aluguéis de veículos foram retomados. De acordo com a Abla, o número é semelhante à realidade pré-pandemia.
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